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Fazem Vinho Dentro de um Vulcão — e É a Melhor Coisa Que Alguma Vez Vai Provar

Wine
Ian Shimenga03/10/2026

Imagine um vinho que não consegue comprar online. Um vinho que não encontra facilmente em garrafeiras ou em restaurantes fora do país de origem. Um vinho nascido dentro de uma caldeira vulcânica ativa, a mais de 1.700 metros de altitude, no meio do Oceano Atlântico. Um vinho feito por pessoas que, em novembro de 2014, viram a lava destruir as suas casas, as suas vidas e as suas vinhas — e que, quando a lava arrefeceu, decidiram regressar e reconstruir tudo literalmente sobre a rocha nova. Esse vinho existe. Chama-se Vinho do Fogo.

Um terroir único no mundo

O Vinho do Fogo é produzido exclusivamente em Chã das Caldeiras, a comunidade de algumas centenas de pessoas que vive dentro da caldeira da Ilha do Fogo. O terroir é radicalmente único: solo basáltico vulcânico extremamente rico em minerais, com grandes variações térmicas diárias (noites muito frias a altitude, dias quentes sob o sol atlântico), vento constante que regula a humidade e a temperatura das folhas, e uma altitude de 1.700 a 1.900 metros. As uvas crescem em condições que nenhum outro produtor de vinho no mundo replica.

O resultado são vinhos com acidez viva e estruturada, mineralidade pronunciada (o chamado goût de terroir vulcânico), álcool relativamente baixo para a intensidade de sabor, e uma personalidade que enólogos de todo o mundo descrevem como improvável e memorável.

A história de resiliência por trás de cada garrafa

Antes de novembro de 2014, as famílias de Chã das Caldeiras já cultivavam vinhas dentro da caldeira há gerações — uma tradição iniciada pelos colonos portugueses no século XIX e continuada pelos seus descendentes cabo-verdianos. A erupção de 2014 destruiu as aldeias de Portela e Bangaeira — casas, igrejas, escolas, a cooperativa. O governo evacuou as pessoas para São Filipe na costa. Algumas famílias recusaram absolutamente partir. E as que foram, regressaram mal a lava se tornou pisável.

Replantaram as vinhas nas fissuras da rocha nova. Reconstruíram a cooperativa. E, para espanto de muitos, descobriram que o solo enriquecido pelos minerais da erupção mais recente produzia uvas de qualidade ainda superior. A destruição tinha, paradoxalmente, fertilizado o futuro.

A Cooperativa Chã

Fundada no início dos anos 1990, a Cooperativa Chã é o coração da produção vinícola da ilha. Funciona em modelo cooperativo genuíno — as famílias são simultaneamente produtoras, trabalhadoras e proprietárias. Produz tinto, branco, rosé e também grogue (o Manecom, o mais famoso da ilha). A produção total é muito pequena — algumas dezenas de milhar de garrafas por ano — e a maioria das garrafas é consumida dentro da própria ilha ou exportada em quantidades muito limitadas para Portugal e alguns mercados europeus.

Como visitar Chã das Caldeiras

Voo para São Filipe (a principal cidade da Ilha do Fogo, com ligações de Maputo e de Santiago) e subida de carro de aproximadamente uma hora pela estrada de montanha até à caldeira. Recomenda-se fortemente ficar uma ou duas noites numa pensão local dentro da caldeira — a experiência de dormir rodeado pelas paredes do vulcão, com o céu estrelado e o silêncio absoluto da caldeira, é inesquecível.

A Cooperativa Chã recebe visitas com degustação guiada — é a forma mais direta de comprar garrafas para levar para casa e de compreender a história humana por trás de cada vinho. A combinação de caminhada ao Pico do Fogo de madrugada + prova de vinho ao final do dia é um dos itinerários mais completos e memoráveis que Cabo Verde pode oferecer.

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