Guia Turístico

As Tartarugas de Cabo Verde Precisam do Seu Respeito — Mais Do Que das Suas Fotografias

Turtles
Ian Shimenga8/3/2026

Existe uma fotografia que se repete nos telemóveis de milhares de turistas: uma tartaruga-cabeçuda gigante a sair do mar à noite, iluminada por flashes fortes, rodeada de pessoas a poucos centímetros de distância, algumas com as mãos estendidas na sua direção. É uma fotografia poderosa. E é uma fotografia que documenta um comportamento que pode ser diretamente prejudicial para a vida de um animal que sobreviveu à extinção dos dinossauros.

A luz branca intensa de flashes pode fazer a fêmea abandonar o processo de postura antes de completar a deposição dos ovos. Uma postura interrompida representa um esforço reprodutivo de uma ou duas décadas perdido — porque as tartarugas-cabeçudas demoram entre 15 a 30 anos a atingir a maturidade sexual, chegando às praias de nidificação pela primeira vez.

Cabo Verde alberga uma das maiores colónias de nidificação de tartaruga-cabeçuda (Caretta caretta) do mundo — a terceira maior do Atlântico. Com mais de 200.000 ninhos registados em épocas excepcionais nas praias da Boa Vista, do Sal e da Maio, o arquipélago tem uma responsabilidade enorme de conservação desta espécie. O turismo pode ser tanto parte da solução como parte do problema.

Quando nidificam e como observar de forma verdadeiramente responsável

A época de nidificação decorre entre junho e outubro, com pico em julho e agosto. As fêmeas adultas regressam às mesmas praias onde nasceram — às vezes a mesma praia de que partiram como crias trinta anos antes — para depositar entre 100 e 120 ovos por postura, frequentemente repetindo o processo duas a três vezes na mesma época. Entre agosto e novembro ocorre a eclosão das crias, que emergem da areia numa das cenas mais extraordinárias da natureza.

A única forma ética e responsável de observar é através de programas certificados com guias formados: a BIOS CV na Boa Vista e a SOS Tartarugas no Sal são as duas organizações de referência, reconhecidas internacionalmente.

As regras de ouro para a observação responsável

  • Sempre com guia certificado — nunca de forma independente ou espontânea.
  • Proibido flash em qualquer circunstância — mesmo o flash automático do telemóvel.
  • Lanterna apenas com filtro vermelho (a luz vermelha é imperceptível para as tartarugas).
  • Sem toque, sem barulho, sem movimentos bruscos, sem aproximações frontais.
  • Nunca partilhar localizações exactas dos ninhos nas redes sociais — a caça furtiva de ovos ainda existe e os ovos têm valor de mercado.

A história dos ex-caçadores furtivos que se tornaram guardiões

Uma das histórias mais inspiradoras e replicadas de Cabo Verde: a BIOS CV — em vez de apenas reprimir a caça furtiva de ovos nos tribunais — ofereceu uma alternativa económica concreta aos próprios caçadores: formação como monitores noturnos e salário fixo. Estes homens conhecem as praias como ninguém, identificam os ninhos antes de qualquer tecnologia, preveem os comportamentos das fêmeas e são hoje os mais eficazes e comprometidos defensores das tartarugas cujos ovos outrora vendiam. Este modelo de conversão comunitária é estudado e replicado em dezenas de outros projectos de conservação em todo o mundo.

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